recolheria toda a louça da família

Minha psiquiatra me perguntou se eu estava triste em ficar na casa da minha avó. Eu disse que não, só sentia vontade de lavar as louças da casa dela com cloro, deixar os utensílios, talheres e os pratos de molho. Acho que com os anos a minha avó perdeu a força na mão e não esfrega mais as coisas como deveria. Mas esse sentimento não passava pelo lugar da tristeza.

Eu lembro que comentei com a psiquiatra que nada comigo passa pelo lugar da tristeza. Eu pego esses sentimentos e penso: vou escrever um poema sobre a minha avó que começa com:


recolheria toda a louça da família
e algumas ela até já me prometeu em vida,
e começaria deixando de molho no cloro.

Minha avó foi doméstica a vida toda, não acho nada desta situação meia porca ou falta de higiene. É triste, mas minha avó não ter mais força no braço pra limpeza, eu só sinto vontade de fazer por ela toda a limpeza do espaço que falou muito sobre nossa relação. A louça que com o tempo foi ficando um russo ou um resto de qualquer coisa que nem sei descrever, mas sei que uma noite no cloro resolve. Cuidar do que sobra da família. Cuidar do que a gente segue compartilhando todos os dias, o espaço da cozinha é a nossa bruxaria. Nossa maneira de dizer que ama. Nunca tinha percebido antes, mas a nossa maior linguagem do amor envolve alimentar o outro. 

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