Namorei um padre, poucos sabem, mas foi uma experiência.

    O meu namoro mais curto parece que foi com um Padre. Minha terapeuta também estranhou quando a disse que estava namorando. O fato é que quando existem química entre pessoas, o que elas decidem chamar, eu passei a ser mais permissivo e aceitar o que viesse, eu sei que namorar exige uma responsabilidade emocional muito grande, mas o padre decidiu chamar de namoro o que tivemos. E eu concordei, num ato de descoberta sobre mim também (de que estava disposto a ser o que o outro determinasse, uma vez que no final quem vai ter que lidar com o que eu sou, sempre será eu).  
    Com o tempo, percebi que namorar é um processo diário de dor em que todos os seus defeitos são percebidos e você escolhe fazer diferente por autoconhecimento e altruísmo, a maior prova de amor da vida é tentar fazer diferente por quem você escolhe ser lar. E aqui, cabe duas reflexões, e esclarecimentos a você que me lê, 1. Ele não era padre, ele tentou ser, mas o processo de tentar dele durou seis anos. Seis anos tentando ser algo definitivamente te torna algo diferente e significante em você. 2. Foi meu relacionamento mais bonito, porque estava lidando com alguém que de fato promete amor cristão ao próximo consciente de todas as suas singularidades. Quase como aquele verso do Drummond, "E todo seu conteúdo/ De perdão, de carícia/ De pluma, de algodão/ Jorra sobre o tapete".
     Sem querer ser repetitivo, mas acho que cabe mencionar que namorar é um processo diário de dor em que todos os seus defeitos são percebidos e você escolhe fazer diferente por autoconhecimento e altruísmo, a maior prova de amor da vida é tentar fazer diferente porque você escolheu ser lar para outra pessoa. O Autoconhecimento está em perceber que todos os seus defeitos que você demorou anos tentando escondê-los ou melhorá-los estão ali. Prestes a serem jogados na sua cara sem pudor e compaixão.
    Por exemplo, sempre achei minha poesia muito direta, preto no branco, literal. Mas também pensava que era por minhas principais referências serem a poesia marginal, e acho que algum momento li que essa poesia anticabralina não passava pelos caminhos da imaginação compositiva como por exemplo João Cabral que vai trazer a imagem do Cão Sem Plumas totalmente diferente da Ana Cristina Cesar que diz "meu embaraço te deseja". 
    Assumo, que desejar estudar o Drummond no doutorado e ter se encantado com a teoria da hermineutica e imaginação de minha primeira orientadora na UNICAMP, era justamente por me entender literal demais. Mas quando sua briga no relacionamento passa por esse lugar. Te lembrando, como você pode ser poeta? Se tudo o que você entende é tudo preto no branco? (Dói em silêncio). Acho que nunca disse a meus amigos que tinha aprendido jogar tarô por causa de um livro chamado "Tarô ou a máquina de imaginar", também não disse que o livro da minha vida adulta era "Manual de flutuação para amadores" que explica o porque dos últimos anos eu me empenhar tanto numa poesia sobre todas as abstrações do fenônemo da chuva. 
    Não tinha como o padre saber, era uma ferida que estava há uns anos tentando esconder ou melhor, uma ferida que estava tentando sarar. Ver o outro enxergar com surpresa suas falhas ou seus defeitos é um caminho meio torto. Perceber que ainda tem muito o que melhorar, se de fato é seu interesse querer ser uma pessoa melhor e você tenta, mas não significa que você também consegue ser diferente. Mas tá ali, posto, ainda não dá pra esconder. 
Ps: Nunca pensei que conseguiria falar sobre altruísmo em algum momento na minha vida sobre mim, mas é a grande palavra sobre amor.

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