Tem uma passagem da Fernanda Montenegro lendo Simone Beauvoir que não paro de pensar em que ela diz: -  Sartre a tratava de igual para igual, mas só se sentiu mulher na cama com um imigrante em Chicago. (Depois vou pegar o audio pra ouvir e escrever sobre) gravo coisas sem autorização porque penso nelas depois. 

o Fábio e recortes de memória


    Quando eu fui para o Equador em 2015, eu perguntei para o Fábio se ele podia me levar de carro de Guaratiba até o Galeão (algo em torno de 50 a 55 km). Naquela época, eu era um estagiário numa empresa ruim, que pegou o salário do mês, acho que 900 reais e foi numa casa de câmbio num shopping trocar por dólar, algo em torno de 120 dólares). Ou seja, eu era um fudido pior que a Madonna que chegou em Nova Iorque com 50 dólares nos anos 90. Mas, retornando ao Fábio, ele me levou sem nem me cobrar a gasolina. Quando a gente colocou a mala no carro a minha avó começou a chorar e sem conseguir falar direito disse que eu era o amor da vida dela. Eu fiquei as duas horas de viagem de Guaratiba até o Galeão em silêncio no carro, foi quando a ficha caiu que talvez eu não voltasse mais. 

    Eu só tinha a passagem de ida para um país que não conhecia ninguém e nem falava espanhol. Mas, dessa vez tudo foi diferente, estou retornando para o Rio e eu fiquei feliz de poder dar um pouco mais do dinheiro da gasolina para ele vir pra Campinas pegar minhas coisas para voltar para casa para novos objetivos e sonhos. O Fábio é um amigo que eu sei que tá sempre do meu lado quando eu preciso dele, daqueles amigos que te ajudam a esconder um corpo.


tenho pensado demais no meu diagnostico de bipolaridade, pensado demais nas pessoas que namorei numa tentativa de pedir ajuda para acalmar tudo que estava de alguma maneira explodindo dentro de mim. Pensado em como tenho tentado pedir ajuda nos últimos anos sem ser entendido e também em como mandar e-mails de gratidão a quem amei no passado dizendo coisas como "não tenho pensado em voltar, mas queria agradecer o tempo que estivemos juntos, foi o período mais estável da minha vida". Mas a última frase pede que reforce trinta vezes, "não tenho pensado em voltar".

recolheria toda a louça da família

Minha psiquiatra me perguntou se eu estava triste em ficar na casa da minha avó. Eu disse que não, só sentia vontade de lavar as louças da casa dela com cloro, deixar os utensílios, talheres e os pratos de molho. Acho que com os anos a minha avó perdeu a força na mão e não esfrega mais as coisas como deveria. Mas esse sentimento não passava pelo lugar da tristeza.

Eu lembro que comentei com a psiquiatra que nada comigo passa pelo lugar da tristeza. Eu pego esses sentimentos e penso: vou escrever um poema sobre a minha avó que começa com:


recolheria toda a louça da família
e algumas ela até já me prometeu em vida,
e começaria deixando de molho no cloro.

Minha avó foi doméstica a vida toda, não acho nada desta situação meia porca ou falta de higiene. É triste, mas minha avó não ter mais força no braço pra limpeza, eu só sinto vontade de fazer por ela toda a limpeza do espaço que falou muito sobre nossa relação. A louça que com o tempo foi ficando um russo ou um resto de qualquer coisa que nem sei descrever, mas sei que uma noite no cloro resolve. Cuidar do que sobra da família. Cuidar do que a gente segue compartilhando todos os dias, o espaço da cozinha é a nossa bruxaria. Nossa maneira de dizer que ama. Nunca tinha percebido antes, mas a nossa maior linguagem do amor envolve alimentar o outro. 

 

Rafael de Abreu 

Em algum momento da vida eu queria desenvolver melhor sobre isso, mas enquanto esse dia não chega quero deixar aqui registrado. 

Namorei um padre, poucos sabem, mas foi uma experiência.

    O meu namoro mais curto parece que foi com um Padre. Minha terapeuta também estranhou quando a disse que estava namorando. O fato é que quando existem química entre pessoas, o que elas decidem chamar, eu passei a ser mais permissivo e aceitar o que viesse, eu sei que namorar exige uma responsabilidade emocional muito grande, mas o padre decidiu chamar de namoro o que tivemos. E eu concordei, num ato de descoberta sobre mim também (de que estava disposto a ser o que o outro determinasse, uma vez que no final quem vai ter que lidar com o que eu sou, sempre será eu).  
    Com o tempo, percebi que namorar é um processo diário de dor em que todos os seus defeitos são percebidos e você escolhe fazer diferente por autoconhecimento e altruísmo, a maior prova de amor da vida é tentar fazer diferente por quem você escolhe ser lar. E aqui, cabe duas reflexões, e esclarecimentos a você que me lê, 1. Ele não era padre, ele tentou ser, mas o processo de tentar dele durou seis anos. Seis anos tentando ser algo definitivamente te torna algo diferente e significante em você. 2. Foi meu relacionamento mais bonito, porque estava lidando com alguém que de fato promete amor cristão ao próximo consciente de todas as suas singularidades. Quase como aquele verso do Drummond, "E todo seu conteúdo/ De perdão, de carícia/ De pluma, de algodão/ Jorra sobre o tapete".
     Sem querer ser repetitivo, mas acho que cabe mencionar que namorar é um processo diário de dor em que todos os seus defeitos são percebidos e você escolhe fazer diferente por autoconhecimento e altruísmo, a maior prova de amor da vida é tentar fazer diferente porque você escolheu ser lar para outra pessoa. O Autoconhecimento está em perceber que todos os seus defeitos que você demorou anos tentando escondê-los ou melhorá-los estão ali. Prestes a serem jogados na sua cara sem pudor e compaixão.
    Por exemplo, sempre achei minha poesia muito direta, preto no branco, literal. Mas também pensava que era por minhas principais referências serem a poesia marginal, e acho que algum momento li que essa poesia anticabralina não passava pelos caminhos da imaginação compositiva como por exemplo João Cabral que vai trazer a imagem do Cão Sem Plumas totalmente diferente da Ana Cristina Cesar que diz "meu embaraço te deseja". 
    Assumo, que desejar estudar o Drummond no doutorado e ter se encantado com a teoria da hermineutica e imaginação de minha primeira orientadora na UNICAMP, era justamente por me entender literal demais. Mas quando sua briga no relacionamento passa por esse lugar. Te lembrando, como você pode ser poeta? Se tudo o que você entende é tudo preto no branco? (Dói em silêncio). Acho que nunca disse a meus amigos que tinha aprendido jogar tarô por causa de um livro chamado "Tarô ou a máquina de imaginar", também não disse que o livro da minha vida adulta era "Manual de flutuação para amadores" que explica o porque dos últimos anos eu me empenhar tanto numa poesia sobre todas as abstrações do fenônemo da chuva. 
    Não tinha como o padre saber, era uma ferida que estava há uns anos tentando esconder ou melhor, uma ferida que estava tentando sarar. Ver o outro enxergar com surpresa suas falhas ou seus defeitos é um caminho meio torto. Perceber que ainda tem muito o que melhorar, se de fato é seu interesse querer ser uma pessoa melhor e você tenta, mas não significa que você também consegue ser diferente. Mas tá ali, posto, ainda não dá pra esconder. 
Ps: Nunca pensei que conseguiria falar sobre altruísmo em algum momento na minha vida sobre mim, mas é a grande palavra sobre amor.