transcrevendo uma entrevista
PRETA GIL
Esses dias viralizou uma conversa que a Preta Gil teve com seu pai. Eu particularmente amo o Gil e sua contribuição para a cultura/música brasileira. Mas, sempre pela Preta, sei de alguns comentários e atitudes dividosas do Gil, por exemplo, um dia ela disse que Gil tinha o "olhar de balança", "Preta,você emagreceu 2 quilos?" ou então, quando Preta lançou seu primeiro disco ele só comentou "desnecessário, preta." se referindo a ela ter pousado nu para seu disco.
Liniker incomodando
acho uma régua injusta porque estamos falando de uma mulher-trans-preta que quer sentir o direito de ser amada, no país que mais mata pessoas como ela, pessoas como nós.
Eu, particularmente, estou em transe com o disco novo. O quê mais me mobiliza em CAJU é a parte “quando eu alçar o voo mais bonito da minha vida, quem me chamará de amor?” Eu sei que um homem incrível, esforçado, trabalhador, que sou simplismente foda. Mas, me dói não ter ninguém para celebrar os meus voos mais altos, quando conquisto grandes momentos não tem ninguém ao meu lado.
Eu, por exemplo, não tive formatura, graças a Deus, não tive o constrangimento de ir num evento familiar, sem parente para convidar, mas seguimos resistindo como corpos diferentes, mas ao som de Liniker que nos coloca em afeto ao direito de sermos amados(as) e desejados (as).
um poeta com portfólio
Hit de Machado de Assis
[1] Você sabia que Machado de Assis não está “hitando” pela primeira vez nos EUA? Na pandemia o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas ganhou uma tradução nova e durante meses ficou na lista dos livros mais vendidos.
[3] Alguns diziam: “tive que ler na escola foi traumatizante,
detestei” outro disse “não entendi nada, agora estou relendo”. Essa discussão
começou por causa da repercussão do vídeo da escritora americana lendo clássicos
mundial.
[4] Rapidamente eu retruquei: Mas ao mesmo tempo se a escola
não cobrar em que momento a gente vai conhecer Machado? Às vezes, eu tenho a
sensação de que se a gente não cobra a escola falha, se a gente cobra cria
traumas. A culpa sempre é da escola.
[5] Gostaria de aproveitar o espaço pra dizer que a maioria
dos professores de português que temos, na escola, detesta literatura. E quando
a gente tem sorte de conhecer um professor que sabe o que tá falando, consegue
passar de verdade o que aquele texto significa.
[6] Para vender o livro para adolescentes a gente precisa
dizer que o texto de Brás Cubas “é a história de um defunto falando da sua
morte”, pura balela. Ele só é um brasileiro, medíocre, dramático, lixo. (Talvez
seja um canceriano, minha avó também dedica seus restos aos vermes que lhe dão
atenção)
[7] Uma vida inteira de frustração até a mulher que ele
desejava só via ele como um corpo para transar. Uma rola para o prazer, um lixo
para se ter como marido. Infelizmente, é o retrato do brasileiro todinho.
[8] Brás admira o tio porque faz coisa errada, inclusive o
leva para perder a virgindade num puteiro. Menospreza o pai por ser uma pessoa
boa. A família ficou rica com trabalho desonroso, recuperando escravo perdido.
Tudo na família Brás é uma tentativa de pertencer a uma elite, mostrar poder,
mostrar que tem grana.
[9] Um brasileiro medíocre que não gosta de estudar, não se
esforça para nada que preste, não tem admiração de ninguém porque como sociedade,
também não fazemos questão, de sermos nada além de aparências. O mais triste é nossa
constante necessidade de mostrar que somos melhores que os descendentes de
escravos desse país.
[10] Brás Cubas é um Brasil do século 19, que mostra quem é essa classe média medíocre que temos hoje. Brás é o bolsonarismo, que está empenhado em mostrar que é muito diferente dos mais pobres, dos mais simples desse país, uma tentativa constante de tentar aparentar classe dominante a partir da mediocridade e malandragem. É um Brasil que tá ai "desde tempos imemoriais"...

